Dos dias.


Tinha 17 anos quando ouvi pela primeira vez da boca da minha médica a palavra "depressão". Era tão jovem ou estava de tal maneira perdida nos meus dias que nem sequer me lembro de reagir a tal noticia. Sei que tudo avançou com medicação, medicação que eu nem sabia muito bem para que servia, mas ali estava eu a tomar vários comprimidos por dia na esperança de ver aquele sufoco passar, de ver a vida melhorar ou com o simples desejo de ser alguém que valesse a pena para outra qualquer pessoa.
Tudo se tratou, aos trambolhões lá me fui levantando. Desisti da medicação com a mais pura certeza de que tudo estava resolvido e que eu não precisava de mais nada. Que aquilo que a médica me disse era pura invenção dela e lembro-me da frase que ela me disse naquela consulta, "Ana, nunca mais nada será igual".

A minha vida mudou tanto que ali estava eu a abraçar o Homem que seria a pessoa mais importante da minha vida. A felicidade apesar de todas as coisas menos boas que nos foram acontecendo triunfou sempre e confirmavam a cada dia, mês, ano que a minha vida estava onde deveria estar e com quem eu merecia.
Três filhos e dois anos depois da minha chegada a Portugal ali estava eu de frente a um corpo que nunca antes tinha visto tão grande, de caras com todas as memórias que ali tinha vivido, com as feridas a sangrar, ainda abertas que eu sempre tentei ignorar. Ali estava eu, caída. Ali estava eu de lágrimas nos olhos encolhida naquela cama à espera que aquela dor, que aquelas lembranças saíssem de mim.
As quatro paredes daquela casa passaram a fechar-me, a cama era o meu espaço onde me aninhava, onde sentia aquela culpa gigante por não ter forças para tratar dos meus homenzinhos.
Ele, foi ele que cuidou dos filhos e de mim. Ele, ele lavava roupa e estendia. Ele fazia comer e tentava que eu os acompanhasse, mas nada me levantava nem as lágrimas sumiam da minha cara.
Ele não se cansou de mim, ele cansou-se de me ver a morrer aos poucos.

Foi ele com a ajuda da tia dele que me marcou uma consulta de um neurologista por não sabermos quem nos podia ajudar. É, a classe médica tem esta grande dificuldade, a de ajudar os pacientes a procurar a pessoa certa.

Depois de ele me acompanhar a vários exames fomos novamente ao neurologista que me disse que eu tinha de ser acompanhada sim, mas por uma colega dele, uma psicóloga.
E assim foi, numa primeira fase medicação, que foi deixada para trás graças ao acompanhamento dela e gradualmente. Já vos falei dela, ela não só era minha psicóloga como também minha hipnoterapeuta e que diferença a hipnoterapia fez na minha vida. Que diferença! Sabem o que é sentir a dor a deixar o vosso corpo? Sentir mesmo fisicamente? É... a nossa aventura foi assim.

Aqui estou eu, quase sete anos depois, não tenho mais feridas, mas serão para sempre cicatrizes.
Nunca mais tomei medicação para me reerguer, hoje em dia uso abraços para me reconfortar. Sim, continuo a ter dias menos bons, dias em que me apetece chorar sem razão, dias em que sinto que estou a falhar algures ou que não sou suficientemente boa em algo.
É... deixei de fingir que está tudo bem, não choro mais na companhia do barulho da água no duche. Não digo mais está tudo bem quando o coração apetece dizer que algo está errado mesmo não sabendo o que dói ou porquê.

Hoje, sem saber porquê, mas na esperança de vos reconfortar, abro o meu coração convosco, mostro-vos as minhas fraquezas. Hoje em dia toda a gente fala, partilha um mundo perfeito de tal maneira perfeito que muitas das vezes temos receio em assumir que algo não está bem com medo de acharmos que estamos erradas, que somos um problema, umas falhas da sociedade.Mas não somos, não somos mesmo. Somos pessoas, pessoas reais que nem sempre estão de sorriso nos lábios e a quem a vida nem sempre é pintada da cor dos sonhos.

Não pensem que sou perfeita, que não tenho dias menos bons porque tal como vos disse no facebook do blog, a minha vida não é cor-de-rosa, é de todas as cores.

25 comentários:

  1. Toma lá um abraçinho bem apertado e cheio de cor :)

    Xufia

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    1. Um abraço daqueles que eu gosto minha querida Xufia <3

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  2. Vencer uma depressão é uma grande, grande conquista. :)

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    1. Todos os dias passam a ser conquistas :) Mas, para quem não são né?
      Beijinho miúda.

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  3. Quem me dera que tivesses mais perto para conversarmos��devias escrever um livro,a tua escrita e desabafos da vida deixam me pegada ao ecrã e desejar que o texto não acabe❤❤

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    1. Oh querida Susana mil mercis <3 Havemos de estar ainda mais perto uma da outra e poderemos conversar durante horas.
      Beijinho grande

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  4. Daniela Nascimento23/01/2017, 19:07:00

    Um beijinho com muito carinho Ana 💞

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  5. Minha querida Ana, segue em anexo um abraço muito mas mesmo muito apertadinho.
    Mais uns beijinhos
    Manela

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    1. Beijinho gigante querida Manela.
      Eu sei que estou em falta, mas assim que isto acalmar para estes lados não me esqueço do mail com a estrelinha. <3

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  6. O quanto eu a entendo até se torna doloroso...
    Beijinhos grandes!!!

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    1. É isso mesmo. Torna-se doloroso sobretudo por ser uma dor que já não se explica. Vem e vai e quando passamos a entender que é natural, que será sempre assim e que vai passar as coisas tornam-se também mais fáceis de suportar.
      Um grande beijinho

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  7. Gosto muito de ler,já tem acontecido começar um livro e logo nas primeiras frases acha-lo vazio e parar,mas ao ler o que a Ana escreve apetece sempre continuar, a Ana consegue transmitir emoções de uma forma muito clara.Obrigada por partilhar connosco!

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    1. Sabes Maria, eu acredito que quando as sensações, emoções são vividas por quem escreve é mais fácil chegar a quem está desse lado. Tudo o que aqui escevo é sempre sentido, vindo das memórias que cá guardo.
      Beijinho Maria e obrigada eu por a ter sempre "por perto".

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  8. Uma depressão é sempre uma luta contra a dor. Também passei por isso e com ataques de pânico. Felizmente tudo passou e com o tratamento certo, fiquei bem. Bjinhos Ana.
    P. S - Adoro ler os teus textos, são uma inspiração para mim... Obrigado

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    1. Obrigada querida Vânia pelas palavras e fico mesmo feliz ao saber que tudo correu bem :)
      Um grande beijinho

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  9. Uma menina linda, que eu um dia tive o prazer de ver na TV, e que me encheu o coração e a alma, e que ao contactar mesmo virtualmente, eu adorei! E nunca a esqueci!!!

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    1. Oh querida Mariajea fico tão mas tão feliz ao ler as suas palavras! Juro que sim e nem imagina o quanto me são importantes. OBRIGADA!

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  10. Eu gostei tanto do texto e senti tanto as coisas que disseste porque eu sei o que é passar por uma depressão e ainda enfrentar o mundo sem medicação e tentar ser forte, mas se tiver que chorar tem de ser.
    Beijinhos!

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    1. Querida NoOno, acredita que muitas vezes achamo-nos capazes de enfrentar as coisas, achamos que vai passar, mas se puderes procura acompanhamento sim. Eu comecei com a médica de familia, mas sei que em Portugal existe serviço de psicologia gratuita para os utentes. Informa-te minha querida. Um grande beijinho

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  11. A Ana é uma pessoa muito bonita. Vê-se nas fotos, confirma-se na escrita. Parabéns pelo percurso. Obrigada pela forma como abre o seu coração. Nem sempre os outros são merecedores disso. Bj

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    1. Obrigada pelas palavras tão simpáticas "CS". Sabes, com o tempo cansei-me de ser eu a preocupar-me com quem merece ou não. Abro o meu coração, sem medos (esses já os fui perdendo) e depois haverá sempre quem o ouça, quem o julgue ou quem o ignore. A cada um a sua energia, essa que dá voltas e voltas e que nos acaba sempre por bater à porta... o dito karma ;)
      Beijinho grande

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  12. Um xi-❤ bem gordinho minha querida, beijinhos mil. E parabéns por teres a coragem de partilhar conosco essa tua conquista 😘❤

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    1. Um abraço muito apertado e um enorme obrigada eu por todo o carinho que aqui me vão deixando.
      Beijinho grande querida Liliana

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