À minha miúda J.


A J. é uma das miúdas que encontrei graças ao blog. Uma miúda gira que dói (e não, não sou daquelas que diz isto a todas) na minha definição de beleza, uns cabelos fantásticos e basicamente uma estudante com notas que mostram bem o quanto é dedicada e estudiosa.
Mas, porque vos falo eu da J.? Pelo simples facto de que ela é a minha "mana mais nova" adotiva e tal como eu ela tem um corpo fora dos padrões que a sociedade exige como aceitáveis. E é comigo que vai desabafando as suas inseguranças e vivências. Tenho mesmo pena de não a ter por perto porque me custa não lhe poder dar a força diária que precisa para levantar a cabeça, enfrentar o mundo e ser completamente livre. Tenho pena porque a J. é uma mulher fantástica e não merece a maldade de uma sociedade que se acha dona da razão e apta a comentar a vida e escolhas dos outros. Podem por favor avisar na televisão e nas redes sociais que o corpo de cada um só diz respeito a si próprio?! É que esta informação parece tão óbvia que até faz confusão a quantidade de pessoas que se esquece disso diariamente.
 Claro que pedi autorização à J. para partilhar aquilo que vos escrevo hoje. E escrevo porque passei exatamente pelas mesmas inseguranças, porque ouvi vezes sem conta mais do mesmo e acredito que seremos muitas a ser o "alvo" de quem se acha tudo permitido.
A J. namora com um L. (sim, sim, devemos ter as duas uma queda grande para os L.), que ela define como "alto, magro, olhos verdes entre outras qualidades" (nota-se que está mesmo apaixonada). O L. também se nota bem que gosta dela pelo que é, que aprecia quando ela cuida de si mesma.
Caramba, estou a escrever isto e a pensar, mas as adolescentes não deviam todas achar-se maravilhosas?! Deviam mesmo! Como é que podem os adultos assustar tanto quem se vai construindo nestas idades?! Ai estas minhas questões existenciais...

A J. contou-me que no trabalho do L. um colega de trabalho achou-se no direito de lhe perguntar o que ele via nela sendo ela gorda. Ora que a J. ficou de rastos, compreensível né? 

Enquanto ela me contava isto eu revia-me em cada sentimento dela. Lembrei-me cada dia dos que passei fechada em casa sem querer sair à rua com medo que alguém se lembrasse de comentar o meu corpo gordo em frente aquele que finalmente me amava acima de tudo e mesmo com o meu corpo diferente daquilo que se vende como bonito. Caramba, quantas vezes baixei a cabeça e me tentava esconder na roupa escura na esperança de passar despercebida para que ninguém me enxovalhasse em frente a ele, tal era o medo de ele sentir vergonha de mim.
Enquanto andei com este medo constante, afastava-me dele, perguntava-lhe vezes sem conta se ele sentia vergonha de mim... e ele chamava-me maluca.

Com o tempo e com o crescimento que fui adquirindo ao tratar as inseguranças criadas em mim desde criança percebi que tal como eu me sinto mais atraída por determinado corpo também assim é com os outros, sejam homens ou mulheres. Percebi que não amamos só um corpo, que sim, ele pode achar as minhas coxas e o meu rabo grande algo atrativo e então?! Com que direito alguém usa as minhas características físicas para por em causa o amor que sentem por nós?!

Numa das mensagens que a J. me mandou ela escreveu algo que me custou um bocadinho ler "eu bem te tenho "imitar" mas não consigo".
E é aqui que eu preciso falar mais alto e dizer "o erro é esse". Eu não quero que sejam como eu, não quero que se vistam como eu ou que tenham as mesmas opiniões. Quando criei o blog o único objetivo era partilhar convosco o como cheguei "aqui" e dar-vos força, a inspirar-vos para lutarem por quem são e sobretudo não se resumirem a um corpo, mesmo este merecendo todo o vosso respeito independentemente do vosso tamanho. A J. não tem de ser como eu, tem é de olhar para mim e pensar "vou fazer de tudo, vou ganhar forças para andar de cabeça erguida e cheia de força como anda a Ana". Lembrem-se que uma Mulher que se ama pode assustar algumas pessoas, mas cala sobretudo aquelas que sentem necessidade de magoar os outros. Nunca mais fui alvo de palavras maldosas (as da internet não contam porque se me olhassem nos olhos não teriam coragem sequer de suspirar quanto mais...e juro que isto me faz rir) por isso mesmo, por levantar a sobrancelha e num olhar conseguir dizer "sim, tenho um corpo e então?!". Apetecia-me escrever mil e uma coisas à J., porque teríamos tanta coisa para partilhar, tanta força gostava eu de lhe passar num abraço. Mas, J. lembra-te que o "fazer de conta" não faz de nós guerreiras e o andar bonitas por fora não faz de nós pessoas mais fortes. Isso vem de dentro, vem daquilo que aqueles que nos amam viram sem filtros. Sabes, eu também achava que o andar vestida com roupas mais modernas iria dar-me mais confiança, mas percebi que enquanto aquelas feridas de infância não estivessem curadas, enquanto eu não amasse a pessoa em que me tornei, eu podia ter a aparência que tivesse sempre que me tentassem atacar sobre o meu físico eu iria quebrar, porque a força, essa vem de dentro, não de uma aparência.

É óbvio que eu não tenho uma receita milagrosa para que amanhã todas possamos amar quem somos, mas posso dizer-vos que para mim muito começou quando aprendi a deixar de me reduzir a um corpo, que para uns é bonito, para outros fora de padrão ou mesmo feio. Mas e então? A Ana é só este corpo? É só esta imagem? Não. A Ana é a pessoa que eu amo acima de tudo, é a pessoa em quem eu trabalho para ser melhor todos os dias e isso minha gente já não há ninguém que lhe possa tirar valor mesmo quando pensam poder magoar-me.
Aprender a dar valor a quem somos, aprender a ouvir quem se deu ao trabalho de nos conhecer e quis ficar isso sim vale a pena. O resto, lembra-te J. ficam só pela aparência, não merecem que lhes dês ouvidos. Eu sei que parece impossível, mas acredita em ti, orgulha-te da miúda maravilhosa que és e verás que nunca mais terão sequer coragem de comentar um corpo que é TEU e que aquele que te ama, aprecia sem "mas".

Ai como eu queria poder dar ainda mais de mim às minhas "miúdas". Quem sabe, 2017 permitirá que eu vá ao encontro dos vossos abraços e de um chá, para podermos partilhar energia positiva e sobretudo força que une aquilo que somos, seres humanos com uma oportunidade única, a de viver!

P.S. E J. aquela que te aconselhou um chá para emagrecer, sabes o que devias fazer? Como estudante na área da medicina que és, escreve-lhe uma carta a explicar as complicações que podem advir desses "tratamentos".


11 comentários:

  1. Ana,
    Hoje,pela primmeira vez ha muitos anos,comprei uma linda camisola de caxemira perola que me fica muito bem (teve a aprovaçao da minha filha e do meu marido��). E tudo isto graças a ti Ana! Es a minha grande inspiraçao! Obrigada!
    E tu J. aproveita e vive esse amor que tanto te ama!
    Beijinhos as duas
    Manela

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    1. Ai Manela, como eu fico feliz em saber que se inspiram aqui neste pedacinho de mim para darem mais passos em frente. Obrigada de coração!
      Um enorme beijinho Manela (e de hoje não passa o teu email)

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  2. Ainda namoravamos e perguntaram ao neu marido .... "O que vês nela, é uma gaja gorda" ele responde "tem o que tu não tens, tem cabeça e é o que tu não és uma grande mulher" e já lá vão 16 anos de casados + 4 de namoro ... E que ainda dá comichão a muita gente ... Bjos e bom ano

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    1. Sabes Sandra, eu acredito que as pessoas que fazem esse estilo de perguntas são pessoas com muito pouco na cabeça e ainda menos no coração. Como se sentimentos ou escolhas se tivessem de justificar perante os outros. Simplesmente absurdo.
      Ser feliz com quem se quer é mesmo a maior vitória na vida.
      Beijinhos e excelente 2017.

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  3. Cada vez te admiro mais Ana. Consegues por em palavras tudo aquilo que eu penso, que antes achava que não podia pensar porque não estava de acordo com os padrões impostos pela sociedade. É preciso mais pessoas como tu para mudar mentalidades. Beijo

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    1. Sabes, eu acredito que somos muitas com estes sentimentos a precisar de voz, apenas ainda falta a algumas de nós a força de não mais calar aquilo que pode incomodar uma sociedade alimentada e formatada pelos medias e grandes indústrias... sim, porque tudo o que é padrão de beleza ou socialmente aceite nada mais é que uma lavagem cerebral feita para gerar rios de dinheiro para alimentar aqueles que vão comandando a vida do ser humano... as empresas.
      Beijinho grande

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  4. Pois é Sandra! Eu também conheço muito bem esse tipo de "comichões". Mas os cães ladram e a caravana passa!
    Excelente 2017!
    Bjs
    Manela

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  5. Também tenho um L que me dá força para continuar. E que me põe "para cima" nos dias maus. Gosto muito do blog

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    1. Deve ser mesmo coisa dos L., brincadeirinha :)
      Mas, sim eu acredito piamente que ter um ombro que nos ampara é meio caminho andado.
      Mil mercis pelas palavrinhas.
      Beijinhos

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  6. Ana és linda e de coracao enorme😉como já aqui contei já fui gorda (palavra que me custa dizer)já tive os dentes todos podres e já fui mesmo muito mal tratadas a esse nível,e sempre tive dificuldades em me achar uma mulher bonita ou interessante como dizem que sou ou como o meu gajo 😉me acha e por isso me faz muita confusão a discriminação e os rótulos que metem nas pessoas😣só porque não tem as medidas ou a beleza que a sociedade acha aceitável,mas sabes o que ainda me faz mais confusão e me deixa mesmo furiosa e a maldade e o veneno que mulheres têm para com mulheres

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    1. Ai miúda maldade já me incomoda mas entre mulheres então faz-me passar da cabeça... não consigo mesmo entender.
      Adorava ouvir a tua história, temos mesmo de marcar um lanche aqui em casa 😘

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