A minha menina.

Estava numa das minhas sessões de hipnoterapia, e ao contrário daquilo que pensam, eu lembro-me de cada emoção, situação vivida enquanto "mergulhava" naquele "sono profundo".
Ela dizia-me para eu viajar até aquela primeira memória, vincada no meu corpo, aquela memória que me rasgou a alma e nunca mais me deixou ser a criança que eu devia ter sido. Doeu tanto, tremi, encolhi-me e chorei muito. Vi ali a Ana, aquela miúda de quase 8 anos, tão branquinha. Cabelos curtinhos encaracolados e o olhar tão vazio, perdido a fixar o nada que sentia.
Chorei, chorei muito. Estava ali eu a Ana, agora mulher adulta a olhar para o meu eu, a ser espectadora daquilo que me rasgou a alma. Tão gelada e imóvel.
Lembro-me de cada palavra que ela me disse, "Pegue nela Ana, pegue nessa menina que aí vê.". Enquanto respirava um gelo inexplicável, baixei-me e peguei-lhe ao colo e abracei como abraço os meus filhos. Como se o mundo estivesse a acabar e eu quisesse proteger aquela menina. Estava vazia. Sentei-me na beira de um muro baixinho, ela estava ali, sentada ao meu lado como se eu fosse agora a sua proteção. Eu chorava e ela nada. Dei-lhe a mão, ela olhou-me e deitou a cabeça nas minhas pernas de adulta. Baixei a cabeça e ouvi-me dizer "eu estou aqui".
Ela acordou-me. Disse-me que era aquela a minha missão no momento, cuidar daquela Ana pequenina como se fosse minha filha. Limpar o sangue que lhe escorria das feridas, reconstruir aquela menina para que crescesse e se tornasse numa só em fusão com a Ana adulta.
Foram várias sessões em que nos reencontrámos. Em que a "tirei dali", daquele momento, daquele espaço, daquelas pessoas. Fui "lá atrás" reconstruir cada ferida do passado. Fui lá e redesenhei aquela menina que nunca pôde ser menina.

Há uns meses no facebook, partilhavam fotos de infância. Nunca tive uma. Lembro-me bem de como era a partir dos 4 anos... onde as memórias se foram gravando. Nunca digam que aquilo que fazem hoje a uma criança ela esquecerá. Nunca digam isso, (in)felizmente quando as situações nos marcam obrigamo-nos a recordar aquele momento vezes sem conta durante os dias, meses, anos que se seguem. Não sei se por nos doer, se pelo sentimento que gera em nós. Mas ficam sim, durante anos, durante uma vida.
Na altura não pude partilhar foto nenhuma, mas ontem, recebi aquilo que me gelou, fotos minhas. A dias de completar 32 anos, recebo graças a uma antiga vizinha (é dela a mão que me segura numa das fotos), umas fotos onde eu apareço. Abri as fotos estava no carro, com os meus filhos sentados no banco de trás, com o marido a conduzir. Bloqueei. E as lágrimas caíram sem que eu as conseguisse controlar. Estava ali a imagem daquela miúda que eu vi nas sessões de hipnoterapia, aquela miúda que apesar de já ter levado muita porrada, mal sonhava o que ainda iria sofrer. Aquela miúda que sempre quiseram que fosse rapaz estava ali agora a olhar para mim novamente. Foi um resto de dia para esquecer. E ele, ele respeitou aquela ferida, que por muito sarada que esteja será sempre uma cicatriz.
Ele, ele que me deu o abraço enquanto eu me aninhava e protegia entre os braços dele. Ele que ouviu o meu silêncio, me retirou o cabelo da cara e me beijou a testa disse longos minutos depois do meu cansaço quase vencer "Dorme bem meu amor. Já passou. Eu e os filhos estaremos sempre aqui".
Ele é a primeira pessoa que ama incondicionalmente quem eu realmente sou.
Adormeci com a Ana menina encostada a mim. Acordei a Ana Mulher que sou.

Por muito que a vida tenha sido dura, por muito caminho já feito é natural existirem momentos em que tudo desaba. Mas, mais importante é reerguer cada peça no dia seguinte. Acreditem, a Ana menina aparecerá muito provavelmente mais vezes na minha vida porque a Ana Mulher sabe que consegue e pode tomar sempre conta dela.


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