Fear


Foi no último desabafo que tive convosco que recebi um comentário de alguém que foi para mim uma motivação em determinada altura da minha mudança. Se foi para mim inesperado? Foi. Se o conteúdo me deu um murro no estômago? Deu. E porquê perguntam vocês? 
E eu posso dizer-vos que quem o escreveu, a Paula, era na minha cabeça alguém cheia de garra que perdeu imenso peso em pouco tempo quando se dedicou ao ginásio, que me chamou para dias bem passados com desporto e que mostrava uma determinação absolutamente incrível.
Mas, hoje eu sinto que conheço melhor a Paula, apesar da distância tanto a Paula como eu somos mais transparentes, não nos escondemos atrás de sorrisos nem no suor de treinos desenfreados.
Hoje sabemos que a nossa essência é que precisa ser tratada primeiro. Hoje sabemos que um corpo mais magro não nos trará a estabilidade e equilíbrio necessários de uma vida saudável e forte para atingir qualquer objetivo.

Hoje escrevo à Paula, hoje mostro-vos mais umas páginas desta minha jornada.
Sabes Paula, quando conheci o meu marido existia um tema tabu "família". Ele achava estranho eu tão nova não viver com os meus pais. Um dia soltou a pergunta fatal. Eu tremi todos os ossos do meu corpo. O medo em contar-lhe a verdade e ele achar que eu era uma mentirosa ou problemática era mais forte que eu. O medo de perder aquele que me amava era mais que muito. Respondi-lhe com o silêncio e ele respeitou.
Infelizmente quando trazemos feridas no corpo e na alma feitas por quem esperávamos amor temos tendência a sonhar com o dia em que aquelas pessoas vão chegar junto a nós e pedir perdão e finalmente dar-nos o amor que não souberam dar (mais tarde com o tempo e com a aprendizagem desta caminhada percebemos que esse dia não chegará e aprendemos a viver felizes sem esse "sonho"). Mas um dia eu disse-lhe que estava na hora dele os conhecer. Ele viu, ouviu e percebeu o porquê de eu estar sozinha. Nesse dia eu sabia que podia abrir-lhe o meu coração, mostrar-lhe as minhas feridas e seria respeitada. Porque sim, Paula, nós precisamos de ajuda. Precisamos que cuidem de nós e confiem no que dói sem julgamentos. Quando encontramos essa pessoa podemos ter medo, porque sim, esse cabrão do medo não nos larga, mas se queremos acabar de vez com aquilo que nos pesa temos a obrigação de lhes pedir ajuda, de lhes dizer que não somos só força e que às vezes dói tanto que parece que o mundo vai acabar. E não querendo ser adivinha eu acredito que tens a tua pessoa certa neste momento para dar o passo, para lhe pedires ajuda, abrires o livro, chutares os teus medos e confiares que ele confiará em ti sem julgamentos.


Sabes Paula, foi a ele que eu pedi ajuda quando já estava a ser doloroso demais para me levantar todos os dias, para encarar mais 24 horas. Foi ele que me levou até quem me acompanharia nesta mudança, nesta busca de autoestima, porque infelizmente eles começam por se sentir impotentes, eles ajudam, protegem, apoiam, mas não sabem como fazer para que renasças forte e realmente leve. 

Durante a minha jornada, numa das consultas com aquela que me ajudou a sarar as feridas ela fez-me uma pergunta. Perguntou-me se quando eu era criança inventava muitas histórias. Acredita Paula que naquele momento o meu sangue congelou, deixei de raciocinar, deixei quase de respirar tal era o sentimento de dor, desilusão. Na minha cabeça aquela pergunta era o mesmo que me chamar mentirosa. Senti-me julgada. Senti que tinha contado aquela mulher tudo sobre a minha vida, coisas que nunca tinham saído da minha boca e estava ali agora a chamar-me mentirosa. Foi assim que me senti.
Respondi-lhe que inventava na escola atividades de fim-de-semana quando tínhamos de fazer textos. Disse-lhe que dizia às pessoas que fazia anos naquele dia só para receber beijinhos e ser o centro das atenções.
E não lhe disse mais nada, pedi-lhe que parássemos ali. E assim foi.
Fui para casa e chorei durante horas a fio. A desilusão apoderava-se de mim. 
Como tinha consulta na semana seguinte voltei lá, porque eu tinha de dizer aquilo que me doía, eu tinha de lhe dizer que me magoou e que eu esperava que ela nunca questionasse a veracidade dos meus desabafos.
Quando entrei no consultório sentei-me e disse-lhe "preciso falar consigo". As lágrimas já caíam (já te disse que deixei de ter vergonha de chorar ou rir quando me apetece?) e eu disse-lhe que aquela pergunta caiu em mim como um raio que me cortava o corpo.
Ela limpou-me as lágrimas e disse aquelas palavras que nunca mais na vida me esquecerei "Perdoa-me se te fiz sentir assim. Aquela pergunta era só uma confirmação da tua necessidade em criar um mundo paralelo já que aquele em que vivias era negro para uma criança". Abraçou-me e desde então acredita que um abraço é para mim o gesto mais perfeito do mundo.
Foi ela que me fez perder o medo do julgamento, foi ela que acreditou no peso da minha dor e me ensinou o caminho da leveza. Lembro-me de cada detalhe daquele rosto e das suas sessões de hipnoterapia.

O medo que te julguem, o medo que não acreditem naquilo que sai da tua boca, do teu coração é enorme e eu sei disso. É esse o medo que nos deixa a sofrer em silêncio durante anos. Esse medo é pesado demais para nos deixar avançar de cabeça erguida. 
Acredita Paula, o medo esse vai matar-te aos poucos, mas quando o perdes tornas-te tão forte, invencível, que conseguirás tudo e para sempre.

Sabes Paula, estou aqui, mesmo que longe cada vez a transparência é maior.
Dá a mão ao Zé, pede-lhe que te ouça só, sem julgamentos e que sinta o peso da tua dor. Luta e investe em ti. Por ti, pelo filho, por vocês. Mereces tanto libertares-te desse medo e ser feliz. 

És uma vencedora, só falta o equilíbrio que te permitirá festejar essas vitórias diariamente.

14 comentários:

  1. Os teus textos deixam-me sem palavras....
    É tão bom ver pessoas como tu que nos ajudam aos pouquinhos a recuperar várias coisas e sentidos da vida.
    Tenho que te dar os parabéns, és uma mulher com M enorme e cada vez mais tentas passar o que sabes, aprendes e vives de uma forma muito transparente para nós.
    Obrigado por seres assim, Ana!!
    Um beijo no coração <3

    Catarina de Sousa,
    www.fatbutgorgeous.com

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    1. Oh minha querida Catarina nem imaginas o que é para mim saber que a essência e transparência que deposito neste blog chega até vocês e que vos ajuda a ganhar cada vez mais força!
      Um enorme beijinho e eu é que tenho (muito) a agradecer.

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  2. Tu e esse teu dom da palavra que nos atinge bem no fundinho do coração...é tão bom!!!

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    1. Dora é essencial para mim saber que assim é. Que não vejam nenhum destes desabafos como só textos. São palavras vividas, sentidas e que espero façam sentido para quem as lê :)

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  3. Que engraçado conheço uma das moças da foto :)
    Beijinhos
    Tânia Norberto

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  4. Ai Gémea...... Adoro-te muito.
    Paula, sei tão bem o que passaste.... é o que eu sinto neste momento. Mas vou lutar para que este lado "negro" se vá embora e posso ser uma guerreira novamente!
    Tal como a Ana, minha irmã de alma, me faz questão de mostrar e exemplificar em todos os passos da sua jornada!
    Um beijinho e um abraço apertado Às duas!!!

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    1. Sabes que te adoro ❤️ E sabes também que somos capazes de tudo... Tudo! Apesar do cansaço e dos dias menos bons nós podemos sempre tudo.
      Beijinho e um abraço forte minha mana de alma

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  5. Depois de ler (muitas vezes) este teu post, de ter chorado (cometi o erro de o começar a ler na escola, não o devia ter feito...), de ter passado a noite a pensar em tudo o que disseste, já consigo responder-te.
    O ter perdido peso há 5 anos atrás, foi assim como um acordar. Durante mais de 40 anos estive fechada às emoções, às pessoas e quase posso dizer às amizades.
    Quando entro no programa e começo a ter algum sucesso, as atenções viram-se para mim e eu de repente sinto-me observada e de alguma forma elogiada. As pessoas viam-me como um exemplo... claro, que as más línguas continuavam a achar que fui beneficiada, que era a preferida dos pt's, que tomava comprimidos para ter mais energia e conseguir perder mais peso. Isso houve sempre... mas o que é certo é que eu gostava daquelas reações que esta Paula estava a sentir.
    Sempre defendi que deveria ter havido apoio psicológico no Peso Vital. Sempre me disseram que não era objetivo do programa... que aquilo que nós pagavamos não abrangia mais "extras". Nunca me hei-de esquecer que uma vez a psicóloga do Peso Pesado foi fazer uma aula ao clube e no fim depois de me ter sido apresentada pelo Zé, e de termos tido uma breve conversa, ela se ofereceu para conversar comigo... aquilo deixou-me a pensar. Porque acharia ela que eu precisava de conversar com ela??
    Isto tudo para dizer muito mais... mas não me vou alongar aqui, até porque ontem fui criticada no meu blogue por falar demais da minha vida privada. Sabes como é, não sabes?
    Se gostava de falar de tudo, abrir o coração e deitar cá para fora o medo? Sim gostava e sei que preciso... mas até para isso vou ter que ganhar forças.
    Obrigada pelas tuas palavras, pela confiança, e mais uma vez pela mulher que és...

    Beijinho

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    1. Sabes miúda, não precisas dizer nada. Sei o que sentes lembras-te? ;)
      Uma vez na Quinta da Fonte decidimos fazer "greve" por isso mesmo, faltava o aconselhamento psicológico (e umas outras coisinhas), foi prometido mas nunca aconteceu. Em todo o caso foi uma fase boa mas faltou-nos a força para ver que nos faltava algo, que não estava completo para manter aquela força para sempre ;)
      Sobre o que dizem... que andamos a expor a nossa vida. Pensa comigo, valerá a pena passar por esta meia dúzia de anos a sofrer e não fazer desse sofrimento a nossa força?! Nem que seja para ajudar a nossa pessoa e/ou os outros?!
      Eu quero lá saber dessa história de "expor", as pessoas falarão sempre por isso que esta minha passagem sirva para deixar gente feliz e mais forte. Gente que vive a vida.
      Tu és grande querida Paula, tu e eu sabemos. Aquela psicóloga também sabia.m, a sensibilidade sente-se. :)
      Um grande beijinho miúda ❤️

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  6. Muita força para todas as lutadoras... é uma luta tão difícil que certamente vamos ter de recorrer a uma mão para nos amparar!

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    1. Oh minha querida nem imaginas como essa palavra me deixa feliz! Obrigada por cada palavra! De coração <3

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  8. So li hoje este texto,se calhar veio mesmo na hora certa pois hoje tenho o coracao triste e as lagrimas que soltei limpou me a alma.Pois e o medo o cabrao do medo faz nos parar e nao fazer o que tem de ser feito para se ser feliz.Adoro o que escreves nao sei identifico me tanta vez��������

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