Participação #2 - E SE FOSSE CONSIGO?

(imagem retirada da internet)

Há uma coisa que eu gostava de vos dizer antes de continuar com aquilo que vos quero deixar hoje.
Este blog nasceu da minha vontade em ser um motor de mudança, não só em relação à sociedade, mas sobretudo para Mulheres que tal como eu passaram momentos complicados devido ao seu corpo. E seja o corpo de que tamanho for, pois preconceito sentimos assim que a nossa aparência se afasta dos ditos "padrões standard", que é como quem diz "imagens fabricadas".
Não quero que pensem sequer em sentir pena de mim ou tristeza. Nada disso. Acreditem que eu já me tornei uma Mulher forte e muito feliz por estar viva. Hoje em dia a minha missão é uma, fazer com que quem por aqui passe não desperdice mais os seus dias por causa de olhares alheios. Quero partilhar convosco algumas das situações difíceis que vivi, mas também momentos e sensações que deixei de viver por querer esconder do mundo este corpo que é meu.

Senti desde muito cedo que a A., jornalista da SIC para o programa de televisão "E se fosse consigo?" tinha percebido quem eu era, aquilo que queria da vida e a importância que dou às pequenas coisas e aos sentimentos.
Durante a nossa conversa (não consigo definir aquele momento como entrevista) falámos daquilo que me arrependo de ter ou NÃO feito... e este é um ponto mais que sensível para mim.
Há uma coisa que me corrói o coração de cada vez que me lembro. O meu filho mais novo tinha passado os oito meses de vida. Como para cada um dos meus filhos existia um ritual, o seu primeiro dia de praia. Dia de risadas, de descobertas, de fotos e uma sede enorme em gravar o mais possível na memória, já imaginando as histórias que lhes contaríamos associando tudo aquilo às suas reações da época.
Ainda hoje me lembro como os meus dois filhos mais velhos reagiram à areia, ao mar... mas nunca saberei como reagiu o meu filho mais novo. Nunca saberei como foi o olhar dele ao ver a água "dar-lhe um beijinho no pezinho", ou a cara que fez quando encheu as mãozinhas de areia.
Não, nunca lhe poderei contar sobre o seu primeiro dia de praia. Nunca poderei participar nessa conversa com ele.
Lembro-me de ter ficado aterrorizada nesse dia, de ter chorado sem parar em silêncio. Havia ali um misto de vergonha com culpa. Desesperante. Fechei-me nesse dia em casa como me fechava sempre que se falava de praia. Proibi-me a praia durante anos para evitar os olhares. O medo que alguém me humilhasse em frente ao meu marido e filhos era aterrorizador. E eu fechei-me. O medo mata sim.
Trarei às costas sempre o peso de não ter acompanhado o meu filho, de não lhe poder relembrar as sensações vividas naquele dia. A culpa que trago ao peito por ter dado mais força ao medo em vez da vontade e do meu dever de Mãe.
É isto que vos quero dizer, por muito que custe não deixem o medo matar a vossa vida, a vossa liberdade. O tempo não volta atrás e o meu filho não voltará a viver "o primeiro dia de praia".

Hoje em dia visto bikini, fato-de-banho, visto aquilo que me apetecer e que me faz sentir bem, seja na praia, na piscina ou onde quer que seja. Verdade também que ainda há mentes tão fechadas que nos tentam condicionar nas suas regras e que tentam empurrar-nos para uma toca onde não poderemos mostrar a força da liberdade e da felicidade que é estar de bem com a vida.
Amava não ter de ler certos comentários nos dias de hoje, mas infelizmente ainda há um trabalho árduo nesta sociedade, tal como encontrei nos comentários deste post que fiz com um bikini que adoro.


Cada vez que pensarem em esconderem-se peço-vos uma coisa, uma única coisa. Pensem em mim, pensem nas palavras que partilho convosco e neste peso que carregarei até ao fim desta minha jornada por me ter anulado e não ter vivido momentos tão importantes por vergonha de um corpo que a sociedade teima em criticar e ofender.

12 comentários:

  1. Anónimo23.4.16

    Oh Ana, tu passas uma emoção tao grande com estes textos. Admiro a tua força para contar publicamente o que sentes. Es mesmo uma inspiracao.
    Ainda nao sou mãe mas quando for nao quero que este preconceito me tire os melhores momentos do meu filho.
    Continua este trabalho maravilhoso, quando ando mais desmotivada venho aqui a este cantinho e dá me forca para continuar.

    Beijinhos
    E.H

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    1. Querida EH,

      Sabes, um dia eu disse que não teria mais vergonha, nem de mim, nem do meu corpo e que assumiria quem sou, o que fiz, o que faço sem nunca baixar a cabeça. Só assim, transparente, este blog vale a pena. Se fosse de outra maneira seria apenas e só mais um blog como tantos que podemos encontrar na internet.

      Quando te sentires desmotivada vem até aqui mesmo, e se não chegar nem hesites sequer em falar comigo. Estou cá para isso :)

      Um enorme beijinho e obrigada por tudo!
      <3

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  2. Nao tenho palavras para descrever o que senti ao ler as tuas palavras, mas o que e certo que ha muito me aceitei como sou e cada dia que passa me sinto mais orgulhosa da pessoa que me tornei..Obrigado pelo blog fiquei fã....

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    1. Lia é exactamente isso que procuro com o blog, que as pessoas sintam! Que se libertem e que cada dia seja mais um passo para uma aceitação plena da vida.
      Um grande beijinho e obrigada eu!

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  3. Além de seres muito bonita também escreves muito bem. Em cada palavra tua que leio consigo sentir a força/emoção com que o fazes.

    beijinhos Partilhas!

    PS- adorei o biquini

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    1. É tão importante para mim ler palavras assim. Que vocês desse lado consigam sentir a força que existe em cada um de nós independentemente das feridas que nos foram deixando.
      O biquini é lindo mesmo :)
      Um beijinho grande

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  4. Vi o programa, acho que és muito bonita por fora e por dentro, gosto de como escreves e do teu sentido de moda.
    Vou passar a seguir-te
    um beijinho
    Gábi

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    1. Gábi! Que simpatia! Obrigada mesmo pelo carinho e fico super feliz por gostarem de ficar por "aqui".
      Beijinho grande

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  5. Ola Ana, Não te conhecia, nem ao teu blogue... Ontem vi a reportagem da sic e fui logo procurar o teu blogue... e simplesmente adorei cada frase que li!!! Eu também sou "Godinha" ou "Fofinha" como diz a minha afilhada! Também não gosto de ir a praia. e também sofro por isso... os meus Filhos adoram...
    Parabéns!!! A partir de agora vou seguir o teu trabalho...

    Beijinhos...

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    1. Carla, acima de tudo és Mulher e Mãe. Lê e grava bem as palavras que te vou dizer. Ama esse corpo, deixa-o viver só assim não terás o peso de não teres vividos momentos importantes na tua vida. Não imaginas como me pesa nunca poder contar ao meu filho como foram as reacções naquele seu primeiro dia de praia. Não te escondas que só tu e os que amas perderão o precioso tempo desta vida. Vai. Aproveita a companhia dos que amas e não deixes que ninguém te faça sentir mal. Não deixes que condicionem a tua vida. Não te escrevo teorias, escrevo-te o que vivi, o que sinto e o que perdi.

      Um enorme beijinho

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  6. We live and learn, Ana. E tu aprendeste muito e soubeste tirar o melhor partido disso. És linda, tão linda!

    Jiji

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    1. Querida Joana, que toda a aprendizagem nesta vida nos faça crescer, e melhores.
      Um grande beijinho

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