Renasce #3



Hoje dei por mim a relembrar uma conversa que tive no inicio deste mês. Uma conversa que me fez reviver imensas coisas. A cada palavra revivi cada momento. A lembrança mexe e remexe até as nossas entranhas, mas mais importante, já não fazem doer de uma maneira insuportável. Melhor, fazem chorar por me lembrar do quanto foi duro o caminho que finalmente ficou no passado. Partilharei convosco a "tal" conversa, quem sabe no inicio do próximo ano.

Mas hoje, hoje venho partilhar convosco aquilo que se encostou a mim durante o dia de hoje... uma das perguntas que pairou no ar "Porque é que custou assim tanto ir para o ginásio pela primeira vez"?

Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-me do dia 28 de junho como se fosse hoje. Dirigi-me aquele que seria o meu ginásio. Num tom de voz baixinho e numa postura envergonhada inscrevi-me e dei por mim a comprometer-me comigo e com eles.
Tudo estava a correr lindamente até que chegou o momento em que ouvi "vamos mostrar-te o ginásio". Senti-me tremer, senti um nó na garganta e quase vontade de chorar. Levantei-me, tentei recompor da melhor maneira possível a roupa que eu queria que escondesse o meu corpo. E segui-os. Olhava para o chão a cada passo, pedi ao universo para que ninguém me visse. E assim correu a visita. Eles a tentarem mostrar-me o ginásio, eu a desviar o olhar e fixar-me no chão.

Hoje dou por mim a pensar no que me levava aquele comportamento. Hoje sei por palavras naquele sentimento que me assombrava.
Sei que aquela reação vinha de humilhações anteriores. De medo.
Passei uma infância em que me chamaram mais vezes nomes ofensivos que o meu próprio nome. E sobretudo em frente a outras pessoas. Vezes em que só me apetecia desaparecer dali, não mais pelos nomes que esses já passavam a ser «normais», mas sim pela vergonha, humilhação que senti a cada vez que isso aconteceu.
A partir daí percebi que a cara daqueles que me humilharam passava a aparecer na cara de todas aquelas pessoas que eu cruzava. Achava sempre que mais uma vez me iriam humilhar em público, que iriam comentar "olha a baleia agora vem para o ginásio". Sempre tive medo. Medo que me humilhassem. Mais ainda em adulta. Conseguem imaginar a dor de uma humilhação em frente ao vosso marido ou aos vossos filhos? Ainda hoje essa lembrança me faz pensar no quanto o ser humano pode viver aterrorizado.
Nos primeiros tempos no ginásio tinha uma técnica (quem é gordo sabe que arranjamos sempre mil e uma técnica), retirava as lentes de contacto ou os óculos, assim não via mesmo nada para o caso de alguém estar a olhar para mim.
Mas depois tudo passou e aquele espaço passou a ser a minha segunda casa.

Isto tudo para vos dizer que as palavras têm um poder inacreditável. Aquelas humilhações em público não só destruíram aquela miúda como a fizeram crescer com vergonha, medo, terror em ser atacada novamente apesar dos anos passarem.
Lembrem-se que se um dia decidirem julgar, maltratar alguém verbalmente, não só estão a humilhar a pessoa naquele momento, mas também a criar insegurança, medo de que tudo se volte a repetir. As palavras matam... lentamente.

Passei uma fase da minha vida em que achava que toda a gente na rua gozava com o meu físico, e um dia, em frente a um shopping com a minha amiga M. vi um grupo de adolescentes que riam entre eles mesmo antes de nos cruzarem. Quando passaram, comentei com a M. “eles de certeza que me chamaram gorda”, e ela respondeu "achas mesmo que se o fizessem eu não dizia nada?". Senti-me protegida. Por ela. Pelas palavras dela e era só o que eu precisava naquele momento. Porque as palavras certas também curam um bocadinho. E sim, já era adulta, mas sentia-me sempre uma criança desprotegida com medo da humilhação em público se voltar a repetir.

Hoje a palavra "gorda" não me incomoda mais. Também não me define, porque eu sou muito mais que um corpo gordo.
Já não dou poder aos outros para me humilharem e isso acho que é uma das minhas maiores vitórias. Não mais permitir que os outros me afetem.

E tu? Ainda dás poder aos que te tiram a paz? Dás poder a quem apenas deseja que te sintas mal?
Não dês! Dá o poder às palavras de quem apenas te quer bem. Só!

22 comentários:

  1. Gostei mesmo de ler este artigo... Vi me em muitas das tuas palavras. Fico contente por te teres finalmente aceite. Bjs

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    1. Eu é que fico feliz em ver que aquilo que escrevo chega até vós <3
      Beijinho

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  2. Olá Ana,
    Li este post com muita atenção, como leio todos. Vejo-me em cada palavra. Eu não vou ao ginásio por vergonha. É impossível lidar com os olhares alheios. Eu pelo menos não consigo. Prefiro ir caminhar em alturas do dia em que sei que não está muita gente na rua... Uma amiga minha uma vez disse-me que se achava gorda. Disse-lhe para ela se deixar de disparates, porque se ela estava gorda, o que estava eu? Ao que ela me disse "nem toda a gente gosta de ter barriguinha". Fazer o quê? Eu também não gosto especialmente, mas não penso muito nisso...
    Este comentário pode não fazer muito sentido, mas é simplesmente para te mostrar que te compreendo. E sinto que me compreendes também.. Um dia vou ser como tu e não deixar que os outros me afectem, mesmo que mande lá para trás da consciência, fica lá.
    Obrigada pelo blog, não me canso de o dizer! :)

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    1. Oh querida Diana obrigada pelas tuas palavras!
      Sobre o não ires ao ginásio, como te entendo. Mas olha quando encontrares O ginásio vais ver que se for o sitio certo te vão acolher numa boa e passarás a sentir-te em casa. Em 2016 acaba o meu contrato com o ginásio, ando à procura de um com dansa porque é o que me anda a apatecer mas é como te digo, tenho de sentir que é o sitio certo para me sentir bem.

      Obrigada eu mais uma vez por me deixares palavras tão boas.
      Um grande beijinho

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  3. Meu Deus!! É impressionante como as pessoas se conseguem identificar em várias situações. Super me identifiquei. Parece que toda a gente nos olha... O que acaba por ser muito estúpido por ao entrar no ginásio queremos mudar a nossa forma física e até lá nos criticam, é demais....

    Um beijoooo,
    Catarina Santos,
    www.fat-but-gorgeous.blogspot.pt

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    1. Acho que todos nós, os que passam uma imagem diferente do padrão da sociedade criamos medos em relação aos outros e se não estivermos fortes mentalmente, facilmente nos deixamos afectar.
      Somos todos diferentes, todos iguais mesmo :)

      Beijinho

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  4. Ai Ana, que agonia ler alguns dos teus textos... nem imagino a mágoa que sentiste... força!!

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    1. Oh querida S* e muito feliz seria eu se tivesse a certeza que era a única miúda a passar por estas coisas... infelizmente não...

      Grande beijinho miúda

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  5. Nada melhor que nos aceitamos como somos tal e qual, o resto - é resto.
    Boas festas.

    *XoXo
    Helena Primeira
    Helena Primeira Youtube
    Primeira Panos

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    1. É isso mesmo Helena. Aapesar de ser um trabalho longo e doloroso, vale muito a pena.

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  6. Que bom testemunho. Durante a minha adolescência senti na pele e na mente o poder destrutivo das palavras, que doem ainda mais quando vem de quem tr devia proteger. Aproveito para te deixar o link de um projecto para o qual talvez pudesses escrever: www.viveatuabeleza.pt :) *

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    1. As palavras são mesmo terriveis mas infelizmente ainda anda muita gente a quem isso não interessa. Mas um passo de cada vez e talvez o ser humano melhore com alguns "updates" :)
      Vou espreitar o projecto. Obrigada!
      Grande beijinho!

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  7. Anónimo29.12.15

    a foto estah excelente. bom ano Ana
    Anonima do Norte

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  8. identifico-me tanto com o que escreves, felizmente não passei por tanto como tu, mas sempre me senti com medo do que os outros podiam achar e sempre com medo de fazer certas coisas por julgamentos alheios. Admiro-te Ana. e gosto de te descobrir a cada post! um beijinho muito grande. Sophye Cordeiro

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    1. Minha Sophye que saudades eu tenho "nossas". Obrigada por estares aí ♡
      Sabes todos nós temos medos, receios. Eu falo da minha dificuldade em assumir um corpo gordo mas sei que existem muitos mais complexos que podem bloquear a plenitude de uma vida. E se eu puder ajudar a ganharem força então sou uma pessoa feliz.
      Enorme beijinho

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    2. Os meus complexos tb passam por esconder (ainda) um corpo gordo sim! Mas q me ajuda imenso os teus post ajudam.
      Tb tenho saudades "nossas" hehehe o meu rebento agora está mais crescido e cada vez mais mexido e eu com cada vez menos tempo. (mas todos os dias te espreito )

      beijinhossss

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    3. Que bom saber que os posts te ajudam minha querida! Faz com que o meu objectivo seja conseguido. De coração obrigada!
      Um grande beijinho

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  9. Apesar do meu problema ser outro, identifico-me nos olhares críticos e nas situações tão constrangedoras. Mas também aprendi cedo que o importante é amar aquilo que somos independentemente da opinião dos outros. A partir daí tudo é mais fácil!

    beijo!!!

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    1. Querida Ana, se eu pudesse apagava mesmo era o olhar de julgamento, o preconceito da sociedade independentemente da diferença de cada um porque infelizmente isso é que nos vai "matando".
      E sim, no dia em que nos encontramos e nos amamos a vida torna-se muito mais fácil e verdadeiramente feliz.

      Beijinho

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  10. Olá, querida Ana!
    Entre o café do pequeno almoço e as rotinas do meu dia, um dos prazeres que tenho é visitar, revisitar, descobrir páginas, blogs, sites. É esse o meu momento de descontraçao antes de enfrentar o dia, sempre tão cheio de afazeres. Hoje, vim, felizmente, parar aqui e, por aqui vou ficar.Para além de uma mulher com um estilo com o qual me identifico, vejo uma pessoa de grande sensibilidade que se nota, de facto, que renasceu. A pulso, com dor, mas renasceu. Dou-te os parabéns por este teu espaço de moda, de beleza, de sentimento, de luta, de esperança!És uma fonte de inspiração! Obrigada!
    Que tenhas um ano absolutamente extraordinário!

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    1. O meu ano já começou maravilhosamente bem!
      Obrigada Maria de coração obrigada pelas palavras maravilhosas, por me ter lido e percebido tão bem, por isso mesmo obrigada!
      Vamos tratar-nos por tu sim, e fica, fica por aqui que eu gosto de gente assim, de energia boa sem medo das palavras.
      Poderei eu dizer algo mais para além de um enorme obrigado? Não sei. Mas fica a gratidão.
      Um enorme beijinho***

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