Renasce #2


A Mar pediu ajuda. Ouviu que a única coisa que precisava era de objetivos. Eu também acho. Mas não lhe explicaram que os objetivos não caem na nossa vida. Não lhe explicaram que precisamos de ajuda a dar os primeiros passos para depois desenharmos objetivos.
Os profissionais são tão humanos quanto nós e esquecem-se tal como muitos de nós do poder da palavra e do tempo dedicado a alguém que só quer ser ouvido.

Lembro-me como tudo começou. O desespero levou-me aquela a quem chamei de médica de família durante anos, aquela que me fez chorar vezes sem conta ao falar para mim como se eu fosse uma criminosa inconsciente por ser… gorda. Sem nunca me olhar nos olhos despejava ali todas as teorias médicas sobre a possibilidade de eu desenvolver problemas de diabetes, colesterol, cardíacos e companhia. Nunca me olhava nos olhos. Nunca. Enquanto ela despejava teorias médicas eu bloqueava e sem pestanejar sentia as lágrimas caírem.
Foi ela que aos 17 anos me abriu a porta. Foi ela que naquele dia me ouviu durante mais de uma hora. Naquele dia ela olhou-me nos olhos e ouviu a dor de quem já não queria mais. E não ouviu teorias. Ouviu a dor de um ser humano. Só. Porque eu sou gente. Gorda. Mas gente.

Uns anos depois atravessei a porta de alguém que viria a ser “a minha parteira”. Eu sabia que medicação podia melhorar os meus dias, mas não iria dar vida à Ana. Tive tanto medo, receio de me aventurar. Todos temos medos. Todos. Quando te fechas numa bolha de vitima é natural sentires medo de lutar contra tudo aquilo que os outros fizeram de ti.
Reviver cada passo daquilo que dói. Desabafar a tua dor com medo de ser julgada por quem te ouve. Ela não julgou. Ela ouviu-me. Ela disse que os “se” não existem numa vida cheia. Ela disse que a Ana podia ser o que quisesse na vida. Ela ajudou-me a “parir-me” novamente.

Lembro-me de lhe contar que quando era miúda dizia às pessoas que fazia anos em dias que não era o do meu nascimento. Queria sentir-me “importante”. Ela perguntou-me se eu “inventava” um mundo meu quando era miúda. Aquelas palavras bloquearam-me, fizeram com eu achasse que ela me estava a desenhar como alguém de mentiroso. Nesse dia não lhe disse nem mais uma palavra. Na semana seguinte disse-lhe que me sentia julgada. Que nunca fui mentirosa e ela respondeu-me que apenas me tinha dito aquilo porque percebeu que eu fugia da minha realidade criando mundos paralelos. Ela tinha razão. Nesse dia abraçou-me. Nesse dia eu baixei mais um muro que tinha à minha frente com a certeza que ela não era mais uma a julgar aquela miúda.

As palavras. As palavras são do caraças. As palavras marcam. Destroem.
Dizem que mais vale palavras às ações. Pensem bem quando disserem tal coisa.
As palavras são armas silenciosas que cortam a alma de quem cresce, de quem procura encontrar-se.
Não permitas Mar que as palavras diminuam a tua necessidade. Não permitas Mar que as palavras dos outros te diminuam ou te tornem naquilo que eles dizem que és olhando apenas para o teu corpo.


As palavras também saram… devagar. Vindas de quem as sabe ouvir de olhos fechados, mas isso será uma outra fase do renascer.

6 comentários:

  1. Li adorei e arrepiei me revi me em muitas das tuas palavras!Ainda hoje acho que todos valem mais que eu!

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    1. Querida Susana, fico mesmo triste em saber que achas que os outros são sempre melhores que tu. Abraça-te e ama-te. Acredita que só nos comparamos aos outros quando nos sentimos inseguros em relação aquilo que somos.
      Verás que quando amares plenamente a pessoa que és, não serás convencida como muitos dizem, serás apenas tu, diferente de toda a gente. É que o nosso EU pleno é único ;)

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  2. Anónimo10.12.15

    Consegues sempre dizer as palavras certas nas alturas certas :') Hoje tocas-te-me!
    Obrigada por todas estas palavras! Dão-me forças para esta nova etapa da minha vida.

    E.H

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    1. Querida EH, que nunca te falte vontade de me escrever se assim precisares ou sentires :) Eu estou aqui!
      Sabes, somos todos muito parecidos, afinal somos humanos. Uns mais altos, mais magros, gordos ou baixos a nossa essência é a mesma e as palavras essas, unem-nos se as soubermos ouvir <3

      Um grande beijinho e acredita que por muito dificil que sejam as fases nada mais são que isso... fases que passam, que mudam, que nos mudam e nos fazem evoluir, crescer. :)

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  3. És forte - e todas podemos ser fortes, basta termos o apoio que precisamos e alguém que nos abra os olhos. Às vezes basta pedir ajuda...e sim, saber usar as palavras, e defender-nos delas!

    Jiji

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    1. Somos todos tão mais fortes que aquilo que um dia imaginámos <3
      Grande beijinho Joana

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